FANDOM


14anos ESSE CONTEÚDO É PROIBIDO PARA MENORES DE 14 ANOS
Sorte
Q-04
Informações Gerais
Série O Questão (NDCU)
Temporada
Arco Antes da Vigília
Número do Episódio 4
Sequência
Episódio Anterior Tolice
Episódio Seguinte Sobrevivência
Créditos
Escrito por Ark F. Scene

Tolice é o quarto episódio da série O Questão (NDCU).

SinopseEditar

A vida de um vigilante nunca é fácil. Assassinatos, assaltos, investigações minuciosas. No entanto, até mesmo os heróis mais sombrios descobrem em algum ponto de suas vidas serem detentores de uma grande sorte: não estarem sozinhas nessa vida.

EnredoEditar

Diário do Questão, 13 de maio, 1982

Resolvi um caso engavetado com ajuda de Kord. Sorte estranha. Dois anos atrás. Jovem. 23 anos. George Haust. Visto andando na rua, cochilando para si mesmo no Dia dos Namorados. Parecia bêbado. Visto por último entrando em casa, mesmo estado. Próximo dia e a casa é encontrada com a porta escancarada, sem sinais de luta. Quarenta e oito horas depois e o caso passou a ser tratado como desaparecimento. Fui à casa procurar pistas. Sem confronto. Sem malas. Sem sinais de partida. Apenas partira.

Ou foi obrigado a partir. Investiguei por semanas. Encontrei membros da família, amigos, inimigos. Ninguém inclinado o bastante. Ou inteligente o bastante. Seis meses depois, sem pistas. Polícia engavetou como morto. Não quis viver com isso. "Piada" do Pacificador ainda na minha cabeça (ver registro, 1 de abril, 1981).

Hoje. Fui à casa de Kord ao anoitecer. Desejava falar sobre mais um artista desaparecido em questão de meses. Queria saber o que ele sabia. Também queria um pacote de Ruffles. Entrei como sempre. Fui à cozinha. Kord comendo em frente a TV. Assistindo políticos regurgitarem mentiras e as servindo em pratos de porcelana. Não me notou até o final do debate. Entrou, quase morreu de susto quando me viu. Tropeçou.

"Hurm... Já foi mais equilibrado."

"Jesus, Questão. Você poderia, sabe... Bater, né? Eu deixaria você entrar." Pausou.

"Talvez." Terminei por ele

"Talvez." Sorriu, balançou a cabeça, e colocou o prato na pia.

"Então... O que tá fazendo aqui, Questão? Sabe, eu tive um dia bem duro. Não sei se eu consigo lidar com..." Passou a mão na nuca. Hábito nervoso irritante.

"Queria sua opinião."

"Ah..." Deu de ombros. Passou a mão na nuca de novo. Bem desconfortável. Terminei a Ruffles e coloquei novamente o rosto. Não gosto de me expor tanto. Até mesmo com Kord. Esperei. Sabia que ele não me seria de nenhuma ajuda. Não queria ir embora ainda, no entanto. Havia algo de errado.

"Olha, eu tive um dia cheio. Talvez seja só a Sexta-Feira 13, não é?" Risada nervosa. Quer que eu vá embora.

"Hurm... O que aconteceu?"

Não esperava uma resposta. Mas ele acabou soltando.

"Um garoto... Talvez com pouco mais de vinte anos, ele vem até mim e começa a se desesperar. O coitado fica dizendo que não sabe quem ele é, ou como ele foi parar ali, nem o que aconteceu com ele durante os últimos anos. Mas ele disse que lembrava de mim. Não como eu tô agora, ele disse. Um eu mais novo. Ele jurava já ter me visto quando era criança, só não conseguia lembrar direito. Eu ajudei ele, mas foi estranho. Acho que eu salvei ele quando era mais novo, sabe, nos velhos tempos."

"Os velhos tempos."

"É... Eu lembro de um grupo de crianças reféns num colégio, sabe? Aquela foi uma das piores situações assim que a gente teve, cara, mas eu me esqueço dos rostos. De qualquer jeito, ele devia ser um daqueles meninos. Ele não sabia o que tava fazendo dessa vez, mas ele não parecia totalmente pirado, sabe? Ficava me dizendo o nome dele, esperava que eu reconhecesse."

Fiquei lembrando da situação do colégio. Uma pessoa baleada. Professora, na nuca. Tentava dizer pra um garoto que ficaria tudo bem. Atirador se assustou. Atirou. Ganhou de brinde uma confortável cadeira elétrica.

"Qual era o nome dele?"

"George Haust."

Conhecia aquele nome.

"Não se lembrava de nada?"

"Não pelos últimos dois anos, pelo que parecia. Disse que se lembrava de tudo até ir pra algum bar no meio do inverno de 80."

"Fuga."

"Oi?"

Me levantei. "Fuga dissociativa. Crise de identidade. Esquece quem é, torna-se outrem. Quando finalmente volta a si, esquece outro eu e ações realizadas desde a fuga. Causado por trauma, estresse físico ou psicológico."

"Então você acha que o subconsciente dele simplesmente decidiu um dia que ia virar outra pessoa?"

"Já vimos coisas mais estranhas. Ele foi visto por último no Dia dos Namorados de 80. Nome encaixa. História também."

"Ah. Dia dos Namorados. Não culpo o cara."

"Hurm?"

"Dia dos Namorados não é exatamente uma data boa pra um cara sozinho, sabe?"

Não respondi, nunca havia pensado nisso antes.

"Ah. Bem... O que você ia me perguntar?"

Silêncios constragendores não são confortáveis pro Kord. E é por isso que eu gosto deles.

"Nada importante. Agradeço as Ruffles." Me virei para ir embora.

"Ei, Questão?"

Parei.

"Obrigado... Por passar aqui. Quer dizer, normalmente eu não sou tão... Falante. Mas foi... Bom te ver. Não te vejo desde Halloween passado... E... Bem... Obrigado, sabe?"

Não respondi. Ele parecia esperar uma resposta, entretanto. Fiquei pensando no que ele disse. Não entendi. Mas finalmente respondi.

"Igualmente." Palavras me soavam estranhas. Kord parecia feliz. Surpreso. Contente? Escutei o falar novamente enquanto fechava a porta, deixando-o em seu repouso.

"Nos vemos por aí... Velho amigo."

Já vi coisas menos estranhas.

PersonagensEditar